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Arte: Arquivo Pessoal.

Mariana Chevalier e a épica jornada no Canal da Mancha

O roteiro da épica jornada protagonizada por Mariana Chevalier Santos durante a tradicional Travessia do Canal da Mancha é digno de Oscar. Com apenas 16 anos, a maratonista aquática do Clube Curitibano superou diversos desafios, como arrecadação de fundos para a viagem, a incerteza com a pandemia, a baixa temperatura em alto mar, as águas-vivas e a forte correnteza. Tudo isso engrandece o feito da atleta, que se torna a brasileira mais jovem a atravessar o longo canal com extensão de cerca de 33,3 km, que separa o sul da Inglaterra do norte da França.

A façanha histórica concluída entre às 5h29 e às 17h24, do dia 30 de julho de 2020, teve início em novembro, quando Mariana Chevalier aproveitou-se de uma desistência para confirmar a sua participação em dos maiores desafios da Natação das águas abertas. Apesar do curto prazo de preparação, o treinador Julio Wood Saldanha garantiu que ela estaria preparada para realizar a temida travessia.

“Poucas pessoas pegam uma vaga em novembro para nadar em julho, é pouco tempo. Como a Mariana já era uma atleta, ela estava acostumada, já tinha um volume de treino considerável. Então parecia tudo certo, quando conversei com o Julio em novembro ele confirmou que dava tempo para se preparar”, revela Walter Cardoso dos Santos Filho, pai da nadadora e que sempre acompanha de perto a filha nas competições.

Além da preparação física e técnica, Mariana precisava de um aporte financeiro, já que o projeto exigia um alto investimento. A partir disso, a nadadora criou a página Mariana Vai à Mancha no Instagram, que mostrou a preparação para a prova e também lançou a vaquinha online, após o não fechamento de contrato com patrocinadores.

Para conseguir reunir uma quantia ainda maior, Mariana e sua equipe desenvolveram camisetas e canecas do projeto. As iniciativas foram consideradas um grande sucesso, que proporcionaram também uma contribuição financeira para o projeto beneficente Rango de Rua.

Canal da Mancha

No dia 11 de julho, Mariana, Walter e Júlio desembarcaram em terras britânicas e se hospedaram na cidade de Folkestone. Por medidas de segurança, os três precisaram ficar 14 dias em quarentena. Trancafiada no quarto e longe do mar, a nadadora executou alguns exercícios de adaptação.

“O meu técnico Júlio e o preparador físico foram passando exercícios para eu fazer, principalmente atividades com elástico e borracha. Para me adaptar, eu tomei banho gelado para não perder o contato com a água gelada”, diz.

Ao término da quarentena, Mariana matou a saudade do mar ao ter uma janela de quatro dias para nadar. Com treinamentos que aconteciam em praias com a superfície de areia e outra de pedrinhas (seixos), a maratonista realizou os treinos a cerca de 200 metros da praia, o que foi importante para uma melhor adaptação a temperatura da água e a soltura da musculatura.

Enquanto isso, Mariana e sua equipe entravam em contato diariamente com o piloto Peter Reed, do Barco Rowena FE75, responsável por determinar o melhor dia e horário para a prática da Travessia do Canal da Mancha. A avaliação feita pelo piloto tinha como base a previsão do tempo, as condições dos ventos e a variação da maré dos dias anteriores e do próprio dia definido para o nado, além da liberação da guarda costeira britânica.

Depois de todo esse processo, Mariana Chevalier soube que quinta-feira, dia 30 de julho, seria o dia ideal para realização da tão esperada prova. “Foi determinado que a gente precisava estar no píer às 5h30, para navegar até uma praia próxima e começar a navegação”, lembra Walter.

Chegada a hora de mergulhar no Canal da Mancha

Com a expectativa em alta, Mariana Chevalier se preparou normalmente para a Travessia, com todo o planejamento e itens de alimentação e hidratação definidos por ela e pela equipe. Durante os ajustes finais, a atleta passou em seu corpo uma pasta especial, composta por vaselina, lanolina, protetor solar e outros produtos, que contribuem para uma melhor proteção térmica e contra raios UV.

A pasta como protetor solar foi perfeito, porque nos lugares onde eu passei a pasta não cheguei a bronzear, ela me deixou quase imune ao sol

Mesmo antes do início da prova, a jovem sentiu um breve nervosismo, que estava presente desde o momento que despertou até o mergulho em alto mar. O estresse acabou impactando na parte física e Mariana acabou passando mal nos primeiros 500m de prova. “Eu comecei a me sentir um pouco mal, nada muito forte”, revela a maratonista, que completa.

“Lembro que o Julio até me ofereceu um remédio, mas eu disse que não precisava porque eu passei mal de nervosismo mesmo. Depois que eu coloquei para fora, fiquei mais tranquila”, avalia.

Canal da Mancha e seus desafios

Intitulado como o Monte Everest dos maratonistas aquáticos, os 33,3 km do Canal da Mancha expõem os atletas as diversas dificuldades, como a água gelada que fica em torno dos 16 graus celsius, o enxame de água-viva e a forte correnteza. A baixa temperatura foi um problema para Mariana nas três primeiras horas de provas, mas a maratonista conseguiu suportar o frio durante o nado.

“Eu achava que seria a minha maior dificuldade na prova, mas isso nem estava mais passando pela minha cabeça”, lembra Mariana. Se a água gelada não era um problema tão grande, a mesma avaliação não poderia ser feita em relação às águas-vivas e correnteza.

Alérgica ao animal marinho, Mariana Chevalier precisou desviar de diversos enxames durante a travessia, o que prejudicou a performance da atleta. “Eu cheguei a levar uma queimadura na orelha lá pela terceira hora, mas foi normal, já tinha levado queimaduras em provas anteriores, ela chegou a incomodar, mas não tinha muito que fazer naquela hora”, que completa.

“Chegou em um momento da prova, a partir da sexta hora, que era o momento mais forte da travessia, quando precisava acelerar porque estava se aproximando do final, a gente encontrou diversas águas-vivas. Eu estava enxergando elas, mas precisava continuar nadando e não dava para levantar a cabeça o tempo inteiro”, lembra.

Nesse momento tenso da prova, Mariana contou com a essencial ajuda do seu pai e do seu treinador, que sinalizavam por assobio quando ela precisava parar de nadar, ficar um pouco em pé, desviar dos enxames e voltar a nadar. Esse processo de desvio durou cerca de 10 minutos, o que causou diversas queimaduras.

Eu levei [queimaduras] no braço e nas costas que incomodaram bastante. Eu acabei levando também uma no rosto no momento que fiquei um pouco desatenta

Entretanto, o forçado encontro com as águas-vivas não foi a principal dificuldade de Mariana Chevalier no mar aberto franco-britânico. Na reta final da prova, a uns 3 km em linha reta da chegada, a jovem de 16 anos estava diante do maior desafio da travessia: a correnteza. O fluxo da água era fortíssimo, o que exigiu muito do seu preparo físico. “Eu via a costa da França, mas não conseguia sair do lugar porque a correnteza era forte demais”, afirma.

A bordo do barco Rowena FE75, Walter e Julio estavam preocupados com o ritmo de braçadas de Mariana, já que precisou nadar com mais intensidade para se livrar da correnteza. “Durante as braçadas, a gente percebeu que ela estava ficando cansada, sabia que estava pedindo para se alimentar, e o Julio e eu estávamos no momento de incentivar para vencer aquela corrente e chegar. Então foi uma parte muito tensa por causa das possibilidade que vinham pela frente se aquela aceleração final não desse certo”, lembra.

Por conta de todo esforço para se desvencilhar do fluxo, Mariana nadou ao todo cerca de 50 km em um ritmo constante, o que gerou o máximo esforço da nadadora, já que ela não pode treinar essa grande distância por causa da pandemia de Covid-19. Mas foi neste momento que Mariana Chevalier mostrou o quão é dedicada, resiliente e preparada para o desafio ao superar a forte correnteza e ficar mais próxima das terras do norte da França.

Angústia na reta final

Apesar de ter superado os mais variados desafios, a proximidade do final da Travessia do Canal da Mancha gerou uma angústia à atleta. O motivo da agonia foi a não definição do ponto de chegada, já que ela poderia encerrar a prova em qualquer lugar de terra francesa.

“Na prova inteira, eu vou seguindo o barco, mas quando finalmente preciso enxergar onde poderia bater a mão ou ficar em pé, eu gostaria que eles me falassem. ‘Mariana, chega onde tem aquela casinha ou chega onde tem aquelas pessoas’. Eles falaram isso quando faltava uns 500m”, conta.

Fotos: Arquivo Pessoal.

Chegada à França

Após a definição do destino final, Mariana Chevalier chegou com mais tranquilidade ao sul da França e, após 11 horas e 55 minutos de natação, resistência ao frio, superação diante das águas-vivas e a forte correnteza, tornou-se a brasileira mais jovem a concluir a temida Travessia do Canal da Mancha.

“Além da felicidade, eu me senti muito aliviada. Eu passei os últimos seis meses apenas com essa prova na cabeça, literalmente. Acordava pensando que hoje tenho treino, depois precisava fazer outras coisas, pensando que preciso tomar suplemento, pensar em passagem, quarentena e pandemia. Então ver que depois desses seis meses só pensando nisso e ver que deu certo a conclusão da travessia, foi um peso que eu tirei dos ombros” comenta com emoção.

Dentro do barco durante a chegada de Mariana ao sul da França, Walter não escondeu o sentimento e o filme de toda a jornada da sua filha foi exibido diante dos seus olhos. “No momento da chegada foi um misto de emoções, com admiração pela Mariana, um alívio por um projeto de sete meses concluído com sucesso”, diz Walter, que acrescenta.

Também de ver uma filha fazendo o que é o Monte Everest das travessias, que apenas um em cada cinco nadadores que se propõem a fazer o Canal da Mancha obtém sucesso. Foi também um sentimento de gratidão pela Mariana, pela família que sempre apoia, como o irmão, Lucas Chevalier Santos, e a mãe, Andréa Chevalier Santos, que faz de tudo para manter a alimentação e a saúde dela em dia

Reconhecimento mundial

Com o registro histórico, Mariana Chevalier está em evidência no Brasil e no mundo. Desde que colocou o seu pé em Cap Gris-Nez, Audinghen, na França, a jovem tem participado de entrevistas e estampado as manchetes dos principais veículos de comunicação. O feito também faz com que a nadadora seja considerada um fenômeno do esporte. Porém, toda essa repercussão não é encarado como o mais importante para a maratonista.

“Estou vendo todo mundo falar. ‘Você é uma inspiração pra mim, quando eu crescer quero ser igual a você’. Mas pra mim está um pouco surreal ainda, porque no meu ponto de vista, eu conclui apenas o que eu queria. Vou precisar de um tempo para digerir isso tudo”, afirma.

Gratidão ao Clube

Mariana agradeceu ao Clube Curitibano por todo apoio estrutural, mas principalmente familiar. “Eu vejo o Clube como uma segunda família pra mim”, começa. “O pessoal da minha idade que faz parte da equipe de Natação e também de Maratona Aquática, nós estamos juntos desde quando tinha 8 anos. Pelo menos a gente se conhece a metade da nossa vida, então acaba que temos uma relação muito importante”, exalta.

A atleta também vai sempre levar para toda a sua vida os ensinamentos e conselhos de cada treinador. “Eu já tive cinco treinadores e eu consigo lembrar certinho de alguma lição que cada um deles me passaram porque foram essenciais. Isso é o mais importante que o Clube oferece, porque é uma extensão da minha família”, enaltece.

Próximos desafios

Com a conclusão do seu maior objetivo, Mariana Chevalier quer se dedicar a uma outra importante atividade em sua vida: os estudos. A jovem maratonista deseja aproveitar a reta final do ano como preparação para o vestibular.

O Clube Curitibano parabeniza Mariana Chevalier, Walter Cardoso dos Santos Filho, Julio Wood Saldanha e toda equipe de Natação pela façanha alcançada na Travessia do Canal da Mancha. O Clube exalta também o exemplo de resiliência, dedicação e amor ao esporte que foram representados com louvor por Mariana Chevalier.

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